Por: Olinda Cabral da Silva Santos
As
doenças infecciosas causadas por bactérias, fungos, vírus e parasitas
ainda constituem o principal problema de saúde pública. Seu impacto é
particularmente maior em países em desenvolvimento, devido à
precariedade dos sistemas de saúde, uso indiscriminado de
antimicrobianos e emergência de microrganismos multirresistentes.
A
resistência aos antimicrobianos é uma preocupação mundial e crescente. O
Brasil e os países latino-americanos, em geral, apresentam níveis mais
elevados de resistência bacteriana quando comparados com a Europa e os
Estados Unidos, principalmente entre cocos Gram-positivos e bacilos
Gram-negativos, incluindo os não--fermentadores e as enterobactérias
produtoras de β-lactamases de espectro estendido (extended-spectrum
β-lactamase – ESBL).
Os produtos
naturais constituem uma das principais fontes de novos agentes
terapêuticos para várias doenças, incluindo as infecciosas. Somente uma
pequena porção da diversidade disponível de fungos, da fauna e flora
marinhas, de bactérias e de plantas tem sido explorada, e sugere-se que
recursos ilimitados podem ser obtidos através do estudo desses
organismos.
Estrutura química da antracimicina (Jang et al., 2013).
Um
exemplo promissor desta última assertiva é o novo antibiótico
antracimicina (Figura 1), produzido pela estirpe Streptomyces halstedii
CNH365, isolada a partir de sedimentos marinhos coletados na costa da
Califórnia. A antracimicina é uma substância tricarbocíclica pertencente
à classe dos policetídeos, e a sua estrutura química única poderia
levar ao desenvolvimento de uma nova classe de antibióticos.
A
antracimicina apresentou potente atividade inibitória contra Bacillus
anthracis em uma concentração mínima inibitória (CMI) de 0,031 µg/ml.
Este microrganismo é o agente etiológico do carbúnculo hemático, também
conhecido como antraz. Normalmente, o antraz afeta mamíferos herbívoros,
principalmente bovinos, equinos e caprinos, podendo casualmente
contaminar o homem pelo contato com animais ou materiais infectados. De
acordo com a via em que os esporos (Figura 2) foram contraídos, a
infecção apresenta três diferentes formas de contágio: cutânea
(manifestação mais comum), inalatória (letal em 95% dos casos) e
gastrointestinal.
Imagem
do esporo de Bacillus anthracis obtida por microscopia eletrônica de
varredura (Copyright © National Academy of Engineering).
http://cdn4.sci-news.com/images/2013/07/image_1241_1-anthrax.jpg.
Atualmente,
o seu maior risco está associado à utilização dos esporos como arma de
guerra biológica e no bioterrorismo. Em 2001, uma semana após o ataque
ao World Trade Center, um grupo terrorista enviou envelopes contendo
esporos de B. anthracis para diferentes localidades dos Estados Unidos.
Esta ação resultou em 22 casos de antraz confirmados, incluindo cinco
mortes por antraz pulmonar. Dada a gravidade desta doença, aliado ao
fato dos esporos poderem ser dispersos na forma de aerossóis, o
desenvolvimento de novos agentes antibióticos para o tratamento desta
infecção vem se tornando um objetivo prioritário para os Estados Unidos.
A
antracimicina também foi capaz de inibir o crescimento de
Staphylococcus aureus resistente à meticilina (methicillin-resistant S.
aureus – MRSA), em uma CMI de 0,062 µg/ml. Esta bactéria é responsável
por infecções primárias da corrente sanguínea, infecções de pele e
tecidos moles e infecções no trato respiratório inferior. Estirpes de
MRSA adquiriram prevalência expressiva nas populações adulta e
pediátrica em ambiente hospitalar, sendo encontradas nos hospitais
brasileiros com variações entre 30% e 60%.
O clone responsável
pela maioria das infecções por MRSA no Brasil, chamado clone epidêmico
brasileiro (Brazilian epidemic clone – BEC), apresenta resistência a
múltiplas drogas. Clindamicina, sulfametoxazol-trimetoprima,
ciprofloxacina e gentamicina são ativos contra MRSA-BEC a uma taxa menor
do que 10%, restando como alternativa terapêutica para as infecções
graves causadas por estas bactérias o uso dos antibióticos
glicopeptídicos (teicoplanina e vancomicina), das estreptograminas
(quinupristina/dalfopristina), das oxazolidinonas (linezolida) e dos
lipopeptídeos cíclicos (daptomicina).
Além
das bactérias anteriormente citadas, a antracimicina também foi capaz
de inibir outros patógenos Gram-positivos, tais como Enterococcus
faecalis (CMI = 0,125 µg/ml) e Streptococcus pneumoniae (CMI = 0,25
µg/ml). Por outro lado, esta droga se mostrou pouco efetiva contra
bactérias Gram-negativas, apresentando CMIs entre > 128 e > 256
µg/ml. A síntese de um análogo da antracimicina, a
dicloro-antracimicina, demonstrou que a adição de cloro à estrutura
aumentou a habilidade do composto em penetrar na parede celular de
bactérias Gram-negativas. A dicloro-antracimicina foi ativa contra
Haemophilus influenzae, Burkholderia thailandensis, Escherichia coli e
Pseudomonas aeruginosa, com CMIs variando entre 4 e 32 µg/ml.
Embora
o mecanismo de ação não tenha sido totalmente elucidado, resultados
obtidos a partir de experimentos de marcação metabólica indicaram que a
antracimicina atua inibindo a síntese de DNA e de RNA. Além disso,
estudos preliminares in vivo demonstraram que esta substância foi capaz
de conferir significativa proteção (90% de sobrevivência) em camundongos
CD1 infectados com MRSA.
O último
antibiótico isolado a partir de fontes naturais foi a daptomicina, em
1986. Este composto, produzido por uma estirpe de Streptomyces
roseosporus, pertence à classe dos lipopeptídeos cíclicos e foi aprovado
para o tratamento de infecções causadas por bactérias Gram-positivas em
2003.
O estudo apresentado acima
foi desenvolvido pelo grupo do Professor William Fenical, do Instituto
Scripps de Oceanografia (California, USA), e publicado no periódico
científico alemão Angewandte Chemie. O isolamento da antracimicina
indica que o ambiente marinho, que representa cerca de metade da
diversidade global, constitui uma rica fonte que precisa ser explorada
visando o desenvolvimento de novos agentes antimicrobianos para compor o
arsenal terapêutico contra microrganismos multirresistentes.
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